15/02/10

Remembering Portishead

All the stars may shine bright

All the clouds may be white

But when you smile

how I feel so good

That I can hardly wait

To hold you

Enfold you

Never enough

Render your heart to me

All mine.......

You have to be

"All Mine" Portishead

11/02/10

Portishead - Roads

ADEUS, NUVENS


Ao aproximares

Sabem-te perto

Sentem-te chegar

Murchas flores

Esquecidas no sono da tristeza

Escutam teus passos

Canções que pararam de tocar

Entre dias à volta de nada

Adivinham teu toque

Páginas dos livros

Abandonados entre recolhas

Guardam-te em aroma

Recantos não mais percorridos

Cantos  perdidos

Quedam-se em esperança

Pela tua chegada

Corpo e alma

Expulsos

Por momentos de desalento

Abeiras-te….

Abeira-se em tons de amarelo
O azul


by Isabel Medina
imagem de Bonali Giuseppe


04/02/10

Elogio do Amor Por Miguel Esteves Cardoso

imagem de Eduardo Nunes

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dize-la. Muito do que se segue pode ser por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dize-lo.

O que eu quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Teixeira de Pascoais meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se.

Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão pratica. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica da camaradagem. A paixão que devia ser desmedida é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam"praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas e cantina, malta do "ta bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa a vida e outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. é esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor nau é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa a vida é outra. A vida as vezes mata o amor. A "vidinha" a uma convivência assassina.

O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber.

O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha e é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."

By Miguel Esteves Cardoso

29/01/10

REHAB


"The man said 'why do you think you here'
I said 'I got no idea
I'm gonna, I'm gonna lose my baby
so I always keep a bottle near'
He said 'I just think your depressed,
kiss me here baby and go rest'

They tried to make me go to rehab but I said 'no, no, no'

I don't ever wanna drink again
I just ooh I just need a friend
I'm not gonna spend ten weeks
have everyone think I'm on the mend

It's not just my pride
It's just 'til these tears have dried

They tried to make me go to rehab but I said 'no, no, no'
He's tried to make me go to rehab but I won't go go go"

15/01/10

Rifa-se Um Coração



"Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista... Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional Que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente E contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: " O Senhor pode conferir", eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer.

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta."

Texto by Clarice Lispector
Imagem "Corações em Fuga" by António Manuel Pinto da Silva

21/12/09

Today I just wish you sing me this song

"Signed, Sealed, Delivered, I’m Yours"
                                                         Stevie Wonder

07/12/09

Cântico Negro por José Régio

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

by José Régio

25/11/09

Até dançaria contigo
Se me pedisses
E não apenas
Em silêncio profundo o desejasses

Até te ensinaria a deixar o medo
De ser diferente
De acreditar na liberdade
De viver

Até te faria deixar de não acreditar
Que não caiba na tua vida
No mundo que te deram
Limitando teus passos

Até te libertaria
Do teu cativeiro
Se me dissesses que o querias
Nem se fosse por um olhar

    by Isabel Medina

20/11/09

Poemas de Amigos - Alan Aguilar Murrieta

Canto en el Espejo

Nada
¿por qué oír tu voz si la oculta el silencio?

¿por qué andar con pies descalzos si has atado

el suelo a la distancia?

Para qué decir “te quiero” en alta voz

para qué morir cuando tus manos se han quedado ciegas

atando remolinos de deseo

Para qué callar

si callar es guardar el más íntimo de los secretos

ese que tu yo explorábamos por dentro,

si por tus besos de locura

yo exploraba tu piel, miel de tu sexo,

y si por tus ojos

me vi pendiente de tu voz

cantándome de lejos...

Ahora, calla la aurora

y en su reflejo

ya no hay más

corazones disecados

perdiéndose de luz a la distancia

Ahora, queda sólo la bella noche

imaginando un canto de recuerdo

llamándome con su dulce voz

al canto en el espejo.

Por Alan Aguilar Murrieta (México)
Imagem de Angélica "A Winter Tale"


Poemas de Amigos - Vera Diogo

Sede


Dá -me água.
Não tenho sede.
É só mais uma daquelas noites em que não consigo estar acordada.
Mas agora não estou a dormir.

E tu?
Já dormiste tudo?
Já dormiste sobre todas as tuas frustrações??
Se calhar sou eu que trago demasiadas chagas ou tenho uma peculiar capacidade para me aperceber delas…
Se calhar, sou eu.

Porque digo isto?
Porque haveria de dizer outra coisa?
Que outra coisa?
Alguma coisa que fosse menos subjectiva…alguma ideia que não fosse obscura?
É muito tarde para isso. E é muito tarde para pensar que poderia ter sido de outra forma.
Mas afinal, o que é que aconteceu?

Quantas pessoas estão dentro do eu?
Quantas vozes terei de ouvir sussurrar no meu íntimo e quantas canções hão-de cantar nos meus sonhos…até que possa finalmente ouvir a tua voz.
Tu, alguém que não está aqui. Alguém que não posso encarnar. Vida, não personagem.

Tenho sede!
Não há água.
Que horas são?
Horas de dormir?
Horas de ir embora… qualquer hora é sempre uma boa hora para começar a viagem.
Viagem para onde?
Viagem!

Quantas palavras se repetirão eternamente na minha mente, quantas ideias serão potenciadas até ao mais sublime da sua essência? Até que, finalmente, algo se torne realidade?
Mas tu não queres uma realidade qualquer.
A realidade é uma pedra.
Tu queres um cristal luminoso!

Com quem continuas a falar?
Com alguém que continua a responder.
A perguntar!
Deste lado não há respostas
Do outro lado do mundo haverá mais?
Ou apenas mais perguntas?

Cedo acabarás por descobrir que as perguntas são as mesmas
Tal como as respostas… escasseiam por toda a parte
Cada um terá as suas, supõe-se.
E quem está lá para as verificar? E quem seria qualificado para isso? Ninguém as pode viver.
Ninguém.
Não há mais ninguém aqui….
Não existe criatura que possa entrar aqui, tão próximo… tão longe do que me prende ao chão.

Ainda tenho sede.
Mas não há nenhum líquido no mundo capaz de a saciar…

Já dormiste tudo??
Que mundo é esse em que vives e dormes, e onde não sei se sabes que existes?

Eu acordei as palavras para me embalarem nesta noite de silêncios e ruídos, como todas as noites… mas numa noite, como muitas, em que o meu ser se ouve mais alto. E, tantas vezes, não sei como o escutar! Não sei que língua fala ou por onde se move.
Está aí… sei que está aí, aqui… onde quer que eu esteja. E respira.
Não sei ao certo por quantas vidas respira…
Há-de respirar pela paz que me adormecerá o espírito… há-de respirar pelo desejo que me atordoa… há-de respirar pela esperança, pelo sonho, pelo drama, pela dor…pelo amor que deveria resumir tudo…

Mas hoje não está uno.
Sinto-me múltipla e contraditória, provavelmente capaz de saltar barreiras…


Não tens sede?

Por Vera Diogo (Porto - Portugal)
Imagem de Alexey Kekin

16/11/09

Silêncio

Voltei
      
Ao

Meu vazio de palavras

Silêncios aflitos

Voltei

Aos

Meus espaços de nulidade

Onde nada dói

Mas fica

Remói

Voltei

Ao

Meu ausente

Minhas derrotas sem luta

Minha vergonha de não ser

Nada fazer

Passos inseguros

De costas para a vida

Mata-me tristeza

Mata-me de uma vez

Vazio

No sense

No sensation

by Isabel Medina

02/10/09

Silenciosamente...a entrega




Silenciosamente
Livro-me de trapos
Destapo-me aos teus olhos
Desato-me do recato

Silenciosamente
Desbravo teus cantos
Me acosto em teu corpo
Me atraco aos teus recantos

Silenciosamente
Danço dentro de ti
Faço-me em ti
Parte de ti

Silenciosamente
Perde-se a voz em suspiros
Gemidos em beijos
Respiro teu corpo

Silenciosamente
Não te deixo descansar
Me amarro aos teus toques
Não me permito cansar

Silenciosamente...
A entrega
Silenciosamente….
O começo de meu ser
by Isabel Medina
Imagem ABrito